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WICKED: "Rosa combina com verde"

  • Foto do escritor: Mary Curious Blog
    Mary Curious Blog
  • 16 de jun. de 2023
  • 7 min de leitura


Feche os seus olhos e bata os seus tornozelos três vezes. E diga para você  mesma "não há melhor lugar do que a nossa casa".
Dorothy indo para casa

Um dos meus filmes favoritos quando eu era criança era O Mágico de Oz.


Eu era a menina que usava sapatilhas vermelhas nos pés (ou qualquer outro sapato vermelho) e ficava batendo os tornozelos de olhos fechados repetindo a frase que a Dorothy dizia no final do filme para voltar para casa - “Não há melhor lugar do que a nossa casa”.


E eu cantava Somewhere Over the Rainbow diversas vezes com a minha família, amava as outras músicas do filme e me divertia com os personagens e a trama de toda história.


Tudo em Oz era muito mágico e fantástico, desde os munchkins dançarinos até a bruxa má verde do oeste (que me dava um certo medo também). Quando cresci, eu parei de assistir a obra tantas vezes, mas comecei a notar detalhes que o filme tinha e eles só me deixaram mais fascinada pelo longa-metragem.


Esse filme, baseado no livro de L. Frank Baum de mesmo nome ainda inspirou diversas adaptações diferentes para o teatro ou até prequels e sequels, que contam diferentes histórias em Oz, como a obra de Gregory Maguire. O autor conta em uma entrevista que queria escrever sobre o mal no mundo e na sua mente apareceu a bruxa má do oeste verde ameaçando Dorothy e seu cachorrinho. Ele também se percebeu questionando a missão perigosa de Oz para Dorothy que deveria matar a bruxa má do oeste para voltar para casa. Que era aquele líder? Então, em 1995, é publicado seu livro “Wicked: A História Não Contada Das Bruxas De Oz” (Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West), que futuramente sairia das páginas de papel para se tornar em uma das maiores peças da Broadway de todos os tempos. Assim, o musical Wicked nasce da visão de Marc Platt, da trilha sonora de Stephen Swartz e do roteiro de Winnie Holtzmann.


Prequels e sequels sempre me fascinaram, porque qualquer um deles exige muita criatividade e audácia dos criadores para que a história complemente a que já existe, mas ainda seja boa por si só. Por isso, lembro que em 2013, uma sementinha de curiosidade foi plantada na minha cabeça quando fui para Londres. Nunca vou me esquecer que logo ao lado do meu hotel tinha um grande poster das duas bruxas de Oz com o nome WICKED estampado. Eu não sabia se ali era um teatro ou se era apenas um banner da peça, mas naquele ano a imagem das bruxas só me deixou cheia curiosidade, porque naquele momento, hoje eu não vi o show e entendo que ainda não era a hora de eu ve-lo.


Mas, para a minha felicidade, ele viria até mim em 2016. Como uma réplica da peça da Broadway, Wicked veio para São Paulo e ficou em cartaz por quase um ano no teatro Renault. Confesso que fui assistir apenas uma vez e sem grandes expectativas, mas que eu saí daquele teatro muito mexida.


O número “Ódio” (What is this Feeling?), que eu rapidamente encontrei no Youtube, foi icônico e divertido, "Desafiar a Gravidade” (Defying Gravity) literalmente tirou meu ar e me deixou arrepiada e, naturalmente, assim que acabou o primeiro ato, tudo que eu queria era vivenciar tudo de novo. Essa vontade só cresceu depois que o espetáculo acabou porque eu consegui reconhecer todos os personagens que eu já tinha visto tantas vezes no filme do Mágico de Oz. Foi como ver algo que eu já amava mas de uma jeito diferente e isso me encantou.


Sem a trilha sonora brasileira facilmente acessível, eu mergulhei na americana e comecei a aprender todas as músicas sozinha até não aguentar mais e ainda saí daquele teatro prometendo para mim mesma que veria aquela peça na Broadway algum dia para viver tudo aquilo de novo.


Glinda (Fabi Bang) e Elphaba (Myra Ruiz) de 2016

Os anos se passaram. Eu passei por Nova Iorque uma vez em 2018 e não consegui ir ver o espetáculo e ainda veio a pandemia em 2020 para abalar o mundo inteiro. Eu também comecei a escrever mais por aqui, ver as coisas de um jeito diferente e pesquisar mais sobre o mundo audiovisual e da arte. E, hoje, estamos em 2023, e uma das minhas resoluções do ano era ir a mais shows e peças de teatro e foi em fevereiro eu acabei descobrindo que Wicked voltaria para o São Paulo.


Em busca de uma aproximação ao musical e a mensagem dele, esse ano eu adentrei mais a história da peça, as músicas e até a história das atrizes para entender também o impacto que Wicked tem nas pessoas e em mim mesma. Eu queria entender tudo que essa peça simbolizou e o quanto essa história se aproxima da minha própria jornada e de tantas outras pessoas.


Myra Ruiz: Mas o que será que faz de Wicked um musical tão especial?

Fabi Bang: Será que é a amizade improvável dessas duas mulheres de temperamentos tão distintos?

Myra Ruiz: Será que são as músicas do Stephen Swartz que faz de Wicked a trilha sonora perfeita para qualquer ocasião?

Fabi Bang: Ou será que é simplesmente o carisma das suas protagonistas?

- Wicked in Concert, 2018.


Eu responderia SIM a todas as perguntas acima. Wicked se tornou um musical importante no mundo todo e esse ano ele completa 20 anos desde a sua estreia na Broadway em 2003, originalmente protagonizando Kristin Chenoweth como Glinda e Idina Menzel como Elphaba. Na primeira adaptação brasileira (sexta lingua a qual a obra foi traduzida) com Fabi Bang como Glinda e Myra Ruiz como Elphaba, as duas atrizes eram jovens e apesar de jornadas profissionais diferentes ficaram conhecidas por esses papéis e se aproximaram muito como amigas depois da peça. Até hoje é uma amizade que vai para além do palco e, como elas mesmas colocam, permitiu que tivessem um olhar maior para a saúde mental delas e uma escuta mais atenta à outra dentro e fora do show.


No programa Conversa com Bial deste ano Myra conta que “É claro que no fundo você prefere ir melhor do que o outro para pegar o papel, mas existe uma coisa da gente, que a gente desde cedo entende, que temos diferenças, então dependendo do papel, o diretor vai preferir o meu brilho ou o brilho dela. Então a gente nunca vai querer ser o brilho da outra”, enquanto Fabi traz que “só de estarmos dentro desse contexto de Wicked isso já favoreceu com que a gente tivesse a princípio uma relação de muito respeito. Do respeito passou para admiração. Da admiração passou para família”.


E de um mundo tão concorrido quando o do teatro, o vínculo das duas veio de Wicked e se tornou algo precioso e emocionante que é muito raro atualmente. Assim, o retorno delas aos papéis principais, das músicas em português que se tornaram icônicas, do novo visual do espetáculo e de um roteiro adaptado com referências à cultura brasileira, resultou nas sessões da temporada de 2023 se esgotaram dois meses antes do final.


Assistindo ao espetáculo, é possível sentir o brilho de cada pessoa do elenco dançando, cantando, atuando e garantindo que o show seja muito bem entregue com direito a todas as emoções possíveis durante a performance.


Especificamente as protagonistas, de “Popular” à “Que Dia” (Thank Goodness) vemos Fabi Bang entregar tudo que a Glinda (Galinda) é e como ela se transforma em Glinda, a Boa, uma bruxa mais fortalecida e corajosa do que quando ela estava na faculdade e era super popular. E, do outro lado, vemos a jornada de Elphaba que vai de “O Mágico e Eu” (The Wizard and I), uma menina verde sonhadora e teimosa, até “Desafiando a Gravidade” e “Todo Mal tem Seu Preço”(No Good Deed) quando Myra Ruiz entrega toda a sua habilidade vocal e performática para as músicas, além de uma personagem questionadora da própria posição em sociedade e das suas ações para fazer o bem.


E, ao final, as duas personagens, depois de todos os erros cometidos, sofrimentos e escolhas distintas se encontrando em “Tudo Mudou” (For Good) que finaliza o espetáculo mostrando como essa amizade improvável na verdade nunca deixou de existir e marcou elas tanto. Esta música final marca as muitas atrizes que já interpretaram as personagens, pois ela representa o final do espetáculo, um momento de calma depois de toda jornada e entrega ao show, além da mensagem que a própria letra carrega. Se torna um momento íntimo que é extravasado para o público e que cria a relação próxima entre todas as atrizes que interpretam a Glinda e a Elphaba, assim como aconteceu no Brasil.


Existe essa irmandade. Este vínculo de entendimento. E mesmo que vocês não se conheçam pessoalmente, é como “Ah, sim, nós sabemos como é. Podemos falar sobre aquele alçapão ou como é ridiculamente difícil subir aquela escada com aquele vestido longo no final da apresentação.” Compartilhamos esse entendimento mútuo, por isso é realmente especial - (traduzido) Laurel Harris, Elphaba na Broadway e em Turnê


Mas o vínculo que você forma com a pessoa que está atuando ao seu lado no palco é algo incrivelmente especial e ouso dizer mágico. (...) Acho que existe esse respeito mútuo e compreensão entre a pessoa que interpreta Glinda e a Elphaba juntas, é que vocês duas estão lidando com esses papéis épicos. Vocês estão lá uma para a outra e há confiança e cuidado sendo incrivelmente presentes para as necessidades da outra pessoa com quem você tem essa oportunidade única de atuar juntas. Porque vocês passam tanto tempo juntas no palco para realmente cuidar uma da outra o tempo todo. Eu sou muito grata por todas as minhas irmãs Elphaba, com certeza. - (traduzido) Ginna Claire Mason, Glinda na Broadway e na Turnê National


Assim, Wicked é uma história sobre amizade, sobre o bem e o mal de cada um, sobre o impacto que algumas pessoas tem na nossa vida e tudo isso dentro de um discurso político, ético e especialmente social crítico dentro de um mundo fantástico que é muito parecido com o nosso.

Pessoalmente, Wicked me trouxe conforto. Na imensidão eu encontrei as músicas do espetáculo. Eu me vi nas dificuldades das personagens e das atrizes brasileiras e me vi tomada pela peça querendo vê-la o máximo de vezes possível (assim como em 2016).


Eu vivo ainda querendo sempre desafiar a gravidade com muitos projetos e descobrindo o mundo. E, enquanto isso eu me vejo como um rio que em muitos oceanos diferentes encontram um novo fim seja em Wicked, em uma animação, em uma história em quadrinhos, ou em pessoas a minha volta. Só sei que agora toda vez que eu escuto o instrumental de “Tudo Mudou” eu me emociono, assim como eu tenho vontade de dançar e gritar sempre que eu escuto “Desafiar a Gravidade”.


Ainda não consegui assistir ele na Broadway, mas pelo bem ou pelo mal, não importa, sei que sempre vou ter a Cidade das Esmeraldas comigo.


Obrigada a todos que fizeram esse espetáculo e parabéns!



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