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A Bela e a Fera - Uma rosa para dois

  • Foto do escritor: Mary Curious Blog
    Mary Curious Blog
  • 19 de mai. de 2021
  • 4 min de leitura

A história da Bela e a Fera se relaciona diretamente com o mito antigo de Eros e Psique. Apaixonado pela princesa Psique, que ele deveria matar, Eros a leva para um castelo onde os dois passam as noites juntos sem que ela veja seu rosto. A jovem acredita que está casada com um monstro e cheia de medo e curiosidade um dia aproxima uma vela do rosto dele e fica encantada. Entretanto, acidentalmente um pouco de cera cai no peito de Eros e sentindo que foi traído ele abandona Psique. Depois de diversos desafios e obstáculos impostos por Afrodite, que sempre invejou Psique, os dois voltam a ficar juntos. Tal história mostra que Eros, também conhecido como Cupido, foi a primeira Fera e que sua união com Psique representa a união entre o amor e a alma.

Com os anos, o mito se repetiu em outras gerações, se tornando cada vez mais similar ao conto que conhecemos. As versões mais conhecidas de “A Bela e a Fera” são das escritoras francesas Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, no qual o filme de 2017 se baseou, e Jeanne-Marie Leprince de Beaumont, que escreveu sua versão baseada em Villeneuve.

Assim como Branca de Neve e Cinderella, a história se tornou um conto de fadas conhecido, ou seja, uma maneira mais pura e simples de criar identificação e ter contato com o inconsciente coletivo e os arquétipos que fazem parte dele. Estes se mostram a partir das imagens arquetípicas que se repetem em diferentes culturas e em diferentes gerações, a exemplo das semelhanças entre os mitos antigos, como Eros e Psique, e os contos de fadas, no caso A Bela e a Fera.

No filme live-action da Bela e a Fera, observa-se outro aspecto coletivo da desvalorização do feminino, algo que ainda vem sendo desconstruído até os dias atuais. As pessoas que vivem na vila acreditam que mulheres devem focar somente no casamento e na criação dos filhos, algo que, tristemente, afeta mulheres no mercado de trabalho até hoje. Bela representa uma princesa que quebra a expectativa social dentro da história, valorizando o conhecimento e as histórias dentro de livros, algo que só é contemplado pelo pai dela antes de ir para o castelo.

A mesma concepção está presente no palácio antes da maldição, porque aprendemos que o príncipe cresceu sem a sua mãe e foi criado por um pai que incorporava o patriarcado e a perfeição, desvalorizando o inconsciente e a expressão de sentimentos. Essas características foram repassadas para o príncipe que não entrou em contato com a sua anima e se tornou viciado pelo seu poder, resultando em um jovem narcisista, amargo e egoísta que era incapaz de sentir empatia pelo outro.

De acordo com Jung, a anima representa os aspectos femininos inconscientes dentro do homem e no momento em que a feiticeira aparece no seu palácio oferecendo uma rosa, símbolo do cuidado, carinho maternos, em troca de abrigo ele rejeita e debocha dela, o que implica, simbolicamente, a repressão de características da anima dele. O desprezo amaldiçoa todos que vivem no castelo, até que o príncipe se conecte com seu inconsciente.

Na vila, Gastón pede a Bela em casamento e ela o rejeita, porque assim como a Fera, ele representa as características masculinas negativas e de desvalorização do feminino. Mas quando Bela se depara com a Fera, mesmo que a contragosto, ela deve enfrentar os tais características que de alguma maneira também fazem parte dela, seu animus. Isso é difícil para a personagem que perdeu sua mãe quando pequena, mas cresceu com um pai com características maternais, que lhe protegia e juntos eles negavam a desvalorização feminina da vila, construindo dentro de casa um lugar íntimo entre eles.

Para que Bela tenha uma vida própria e encontre seu parceiro romântico, ela precisa reconhecer seu animus, representado pelo egoísmo de Gastón e pela desvalorização da mulher intelectual na vila, e se soltar de sua unilateralidade que a une ao seu pai. Com isso, a rosa parece conectar os dois personagens simbolicamente, já que ela também pode ser associada à deusa do amor e sexualidade, Afrodite, indicando a busca por um amor erótico e transcendental, bem como essa união com seu oposto (Mourão, 2017). Tal busca, no filme, deve ser cumprida antes que a flor perca suas pétalas, e mesmo sem buscar um pretendente, Bela é a esperança de todos que vivem no palácio que foi amaldiçoado e para isso, assim como o príncipe, ela deve reconhecer e assimilar seus aspectos inconscientes negados.

O convívio no castelo permite que Bela entre em contato com o seu animus, que são os aspectos masculinos presentes em mulheres, de acordo com Jung, enquanto ela permite que o príncipe tenha contato com seu lado sensível e carinhoso. Ele aprende a enxergar e valorizar as características intelectuais e sentimentos de Bela, se conectando com a sua anima.

Com a morte de Gastón e da Fera na batalha final, os aspectos negativos e tóxicos do patriarcado morrem também. O amor recíproco entre a jovem e a Fera garante que os dois assimilem seus aspectos inconscientes, animus e anima, respectivamente.


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